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ÀS AVESSAS. EDUARDO ARAÚJU REVELA DILEMAS E INTIMIDADE

Eduardo Araúju é o autor de inúmeras histórias de resgate da autoestima de mulheres idosas e Plus Size e sua vida tem sido escrita por elas. Mas quem é ele nas entrelinhas? Despimos esse operário dos sonhos e revelamos o seu lado mais íntimo. Com a emoção à flor da pele, ele expõe suas dores e alegrias e brinda as conquistas.

 

Foto Filipe Menegoy

Se a pauta é abordar a valorização do segmento Plus Size e a maturidade dentro da moda no Brasil e se a revista dá voz à diversidade, então, o nosso entrevistado só poderia ser ele: Eduardo Araúju. Visagista, professor de modelo e manequim e produtor visual, ele simboliza um novo olhar da beleza e o rompimento de preconceitos. Afinal, há mais de duas décadas, sua vida e a moda destinada àquelas que não se encaixam na tal “ditadura estética” têm caminhado lado a lado. Para quem não o conhece e está, pela primeira vez, lendo sobre ele, explico: Eduardo criou uma verdadeira fábrica de sonhos. Idealizador de concursos de beleza para mulheres com sobrepeso e da terceira idade – o primeiro deles ocorreu em 1995 –, ele já ajudou centenas de mulheres no resgate da autoestima e o seu maior legado é saber que fez e faz o seu melhor.

 

“Se um dia eu vier a faltar, sinto que fiz meu trabalho, contribuí com a cultura, fiz a diferença na vida das pessoas”, orgulha-se ele, que acabou soltando essa frase porque lembrou que, dias antes dessa matéria, tomou um susto num voo, em que o piloto relatou problemas técnicos no avião. “Achei que ia morrer e comecei a rezar e a pedir perdão a Deus. Não tinha como fugir. Tinha até bombeiro na pista quando pousamos. Se tudo acabasse ali, eu terminaria com o sonho de muita gente. Tudo isso me fez refletir. ”

 

E é nesse quesito da reflexão, dos sentimentos mais íntimos, que Eduardo se revelou para a Nova Eva. Nosso encontro foi num café aconchegante de Copacabana – bairro onde vive -, numa rua de esquina com a Avenida Atlântica, regado à brisa do mar e a cappuccinos. Bom de conversa e cheio de histórias interessantes para contar dos seus 35 anos no mercado – prometo que irei contá-las adiante –, Eduardo abriu o seu coração e confidenciou seus dilemas pessoais, a hostilização que já foi vítima e quem é o Eduardo fora de cena.

 

“Xi. Você botou o dedo na ferida. Na adolescência, eu sofri preconceito por ser gay. E existem pessoas que não entendem um gay pai e casado, só não vivo mais com ela, que já constituiu outra família. As pessoas estranham quando falo dos meus filhos e que sou avô”, desabafa ele, de 56 anos, que tem começado a rever alguns assuntos particulares com ajuda especializada.

 

Foto Filipe Menegoy

 

“Existe muito preconceito do gay para o gay. E quando o gay envelhece, as pessoas acabam olhando para ele com termos pejorativos: ‘bicha velha, ‘titia’. E eu acabo colocando isso em mim. Porque sou um gay e tô envelhecendo.O gay idoso tem preconceito com ele. Muitas vezes, eu taxo o preconceito em mim, me questiono. A solidão na terceira idade, a pujança da juventude, porque o gay gosta da carne fresca. Existe uma minoria que ‘fica’ com uma pessoa com idade porque realmente gosta dela. A maioria acaba tendo interesse na segurança, no que a pessoa conquistou de patrimônio. Essas questões todas estou vendo com a minha psicoterapeuta. É como me sinto. Nunca revelei nada disso pra ninguém. Às vezes, as pessoas nem me olham dessa forma. É porque vejo isso de uma certa forma coletiva: no que os gays falam, no que os gays novos falam dos gays velhos e no que alguns heterossexuais ridículos olham e pensam: ‘é idoso e ainda é gay’. Passo por isso com as minhas meninas, também. Porque são idosas e estão de biquíni, de shortinho, e acabam sendo chamadas por nomes depreciativos. Falar de mim é isso. Eduardo é um cara sensível, sonhador, que se emociona à toa e muito (aqui, dei uma pausa, pois estava emocionado). Não fala muito comigo porque não vou aguentar (e chorar).”

 

“Se um dia eu vier a faltar, sinto que fiz meu trabalho, contribuí com a cultura, fiz a diferença na vida das pessoas”

 

Depois de revelações tão pessoais e bombásticas, respiramos profundamente, e tratamos de seguir o bate-papo a partir da palavra de como ele mesmo se definiu: sonhador.  Guerreiro e obstinado como é, ele quer muito mais. “Sonho ver essa gente (mulheres PS e idosas) fazendo mais comercial na TV, editorial de moda, aparecendo na ‘Nova Eva’. Mas posso dizer que sou agraciado por Deus”, frisa ele, que tem uma legião de admiradores. Tanto que é chamado, carinhosamente, de divo, padrinho e de Roberto Carlos das passarelas – porque assim como o Rei faz músicas com inclusão dos diversos tipos, Eduardo dá oportunidade a quem está fora do padrão. “Me chamam de divo, mas não me considero divo. Quando você se considera uma estrela, você se bota num patamar que afasta os outros. Eu gosto de ser o operário. E quero viver sempre na contramão, não quero pegar nada fácil”.

 

E é assim mesmo que vive: no contrafluxo. Ouvir nãos só o estimula a prosseguir. Desde os 17, ele já sabia que a sua trajetória seria no meio de mulheres. Parece trama de novela, mas não é, e é ele quem conta.

 

“Tenho uma história espiritual. Com 17 anos, eu fui levado a uma cartomante e tudo que ela disse que ia acontecer, aconteceu. Disse que ia conhecer uma mulher, de mais idade que eu, que me levaria para conhecer o mundo, e que a minha vida seria dentro de avião. E essa mulher se chama Elza Soares. A cartomante ainda disse que, em uma vida passada, eu teria sido um príncipe árabe que fez 20 mulheres sofrerem de amor e não teria sido um pai presente; e que esta minha vida de agora seria escrita por mãos femininas, que iria casar, mas não seria feliz no amor. Por fim, que não faria faculdade, só estudaria o básico, mas que não seria um problema, porque a minha história seria de resgate de autoestima do sofrimento que havia causado nas mulheres no passado.”

 

Arquivo pessoal

A amiga Elza e os concursos

Ainda bancário, Eduardo conheceu a cantora Elza Soares (foto ao lado) após bater à porta do Cassino Amarelinho, na Cinelândia, no Rio, instantes antes do show que ela faria, vendendo cosméticos para reforçar o orçamento. Ela comprou e perguntou a ele: “Sabe maquiar?”. Pois a maquiadora dela havia faltado. Ele disse que não. Elza não entendeu como, já que ele vendia maquiagem. Então, ela decidiu ensiná-lo. Horas depois, no palco, Elza apresentou os músicos e Edu como seu novo maquiador. “Foi a primeira vez que vi um canhão apontado pra mim (risos). Dali, a gente não se largou mais. Viajamos para fora do país, foram 30 anos juntos. Cheguei na moda através dessa trajetória com a Elza. Maquiei as cantoras Lana Bittencourt, Elizeth Cardoso e Zezé Gonzaga e a apresentadora Xuxa Meneguel. Até que conheci a modelo internacional Maria Rosa. Ela abriu uma academia e me convidou para trabalhar com ela. Comecei a dar curso de maquiagem para meninas e percebi que as mães eram mais interessadas que as filhas”, recorda. Em 1991, no Sesi Jacarepaguá, apresentou à supervisão o projeto do curso de modelo e manequim para a terceira idade. “A responsável riu. ‘Curso de passarela para senhoras? Não vai dar certo’, disse. Pedi uma chance, ela me deu e fiz”. Foi a partir daí que começou a quebrar tabus.

 

E nasceram os concursos Miss Maturidade, de 1995 a 2014; Miss Terceira Idade de São Paulo, A Mais Bela Senhora do Rio de Janeiro, Rainha Rio de Janeiro da Maturidade e Rainha das Rainhas. Em 1996, após assistir ao filme “Garotas do calendário”, criou o “Senhoras do calendário”, beneficente e temático. E realizou os desfiles de senhoras com roupas íntimas na Avenida Atlântica e na Feira da Providência, no Rio.

 

“Falar de mim é isso. Eduardo é Um cara sensível, sonhador, que se emociona à toa e muito”

 

A iniciativa lhe deu visibilidade nas imprensas brasileira e de fora, como em veículos da Argentina, Angola, Polônia e Japão. Era ele mesmo, no começo, quem divulgava o trabalho na mídia. “Eu me passei por Paulo, meu assessor de imprensa (fictício), para tentar matéria na TV Globo. Gravei o telejornal da Lillian Witte Fibe (a âncora), que fez a seguinte chamada: ‘Pasmem, existe curso de modelo e manequim para a terceira idade’. E foi um boom.”

 

O mergulho no universo PS aconteceu em 2010, quando lançou o concurso Miss Plus Size Carioca, inclusive uma das candidatas que participaram de um desses eventos foi a dançarina da Anitta Thaís Carla. “Conheci esse mundo através da modelo Fluvia Lacerda, que tem uma história de Cinderela. E resolvi fazer o Miss Plus Size Carioca, sem pretensão alguma, na Lona Cultural de Jacarepaguá. Foi um sucesso”, gaba-se ele, que complementa: “Não faço apologia à obesidade, mas, sim, à oportunidade de felicidade.”

 

Momentos: em Dubai com as modelos da maturidade, com a bailarina Thaís Carla, em cursos de modelo e manequim, com a Miss Carioca Aline Mansur e maquiando a Rainha Xuxa

 

E é nesse momento, quando ingressa no plus, que ele passa por uma experiência única. “Um dia chegou uma muçulmana na minha casa com uma proposta de apoio para o Miss Carioca. Ela me daria uma passagem para Dubai, com tudo pago. Em troca, eu só teria que divulgar. No Facebook, postei que iria viajar pra lá e que queria companhia. E nove mulheres quiseram ir comigo. No deserto, eu comecei a ter umas reações químicas estranhas. Eu e elas estávamos caracterizados e foi uma comoção. Percebi que tinha voltado pra casa. Eu era aquele príncipe árabe (aquele que a cartomante disse, lembra?). E todo ano vou a Dubai”.

 

“Me chamam de divo, mas não me considero. Eu gosto de ser o operário e quero viver sempre na contramão”

 

Em 2015, ele fez o primeiro Miss Rua, com meninas que usavam drogas e, há dois anos, realiza o Miss Plus Size Nacional. Eduardo tem revelado talentos e acredita ter crédito pelo avanço na moda dos tamanhos maiores. “Melhorou um pouco o figurino. Abriram espaço em grandes lojas, temos as especializadas e online. Eu acredito que isso tenha sido resposta dos misses (os concursos). Acho que fui um dos incentivadores dessa abertura no país.”

 

A caminhada é dura, mas recompensadora, a prova é que tem mais planos em mente. “Procuro patrocínio. Já me conhecem como o louco que quebra os paradigmas, né? ”, despista. Seja o que for, com certeza, é algo transformador. E a Nova Eva é fã de carteirinha desse muso.

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