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Atriz do Porta dos Fundos, Evelyn Castro não tá nem aí para os padrões

“Perdi trabalhos por não estar no padrão. Eu ouvi de uma empresária que tinha que emagrecer 15 quilos, aplicar Botox e tal. Fiz loucuras e nada acontecia. Quando engravidei, engordei 23 quilos e fui parar no cinema, na Internet e na TV. Essa sou eu. Não vou ‘noiar’”

 

Texto: Valéria Souza | Fotografia: Filipe Menegoy 
Produção: Equipe Nova Eva | Agradecimento: Sala Municipal Baden Powell

 

A dona do riso. Sucesso no Porta dos Fundos e no Multishow, Evelyn Castro é gente como a gente, anda de metrô, adora o contato com fãs e é talentosa cantando e atuando. Pensar que chegou a desistir da carreira, mas voltou (ainda bem!) e atribui as vitórias à sua fé.

 

Se fôssemos um programa de TV, o som ambiente dessa entrevista seria de muita gargalhada e com uma trilha sonora da melhor qualidade: um mix de clássicos de Tina Turner e Michael Jackson. E o melhor: todo o repertório interpretado pela própria estrela das páginas a seguir. E foi nesse clima que entrevistei Evelyn Castro, uma das artistas mais completas hoje na telinha, no teatro, no cinema e na Internet. Foram duas etapas: no dia do nosso ensaio fotográfico, na Sala Municipal Baden Powell, onde ela soltou a voz, cantando sucessos da Rainha do Rock, enquanto posava no palco; e num restaurante, após assisti-la no musical “O homem no espelho”, que já saiu de cartaz, em que passeava pelos hits do nosso saudoso Rei do Pop, ao lado de outros cantores estupendos. Ao começarmos a bater papo, ela logo avisou: “Falo muito, hein?”. Ok, a gente adora quem desenvolve.

 

E a conversa fluiu: fomos da infância ao sucesso atual no canal Porta dos Fundos, no YouTube, passando pelo boom em musicais no teatro à sua primeira grande chance como artista: em 2005, quando participou do extinto programa da Globo “Fama”, que revelava cantores numa disputa musical. E foi exatamente após o “Fama” que ela viveu sentimentos contraditórios e chegou a desistir da carreira. O motivo? Não conseguia pagar as contas de casa.

 

“O clique para as artes foi na Globo. O programa me mostrou que eu poderia viver disso, o que até então eu via como hobby. Não tenho nenhum artista na família. Nunca tive esse espelho em casa. Eu era muito ingênua. Na minha cabeça era: ‘canto em casa e estou feliz’, ‘atuo na igreja e estou feliz’. Não me movia a ponto de ver isso como trabalho”, diz ela, que na época, mesmo sendo reconhecida nas ruas e dando autógrafos, não conseguia se sustentar.

 

“As pessoas têm uma ilusão com quem está na televisão, né? Eu não tinha dinheiro algum nem para a passagem do metrô. Ao mesmo tempo, saía na rua e as pessoas me conheciam. Me lembro que um dia fui falar com a minha empresária, chorando muito, porque eu não tinha dinheiro para pagar as contas. O show que tinha feito não tinha dado muita grana e eu tinha que repassar a parte dela, pagar os músicos e tal. E ela me perguntou: ‘você quer carreira ou quer ser celebridade? Porque celebridade passa, se quer ter carreira, você vai sofrer’. Parei de chorar e eu entendi o que estava rolando. Porque saí do ‘Fama’ como celebridade, não sai com uma carreira, tinha que batalhar por isso”, conta ela, que decidiu, então, afastar-se por dois anos da música profissional.

 

Fora de cena

 

Técnica em Publicidade e Propaganda e Designer Gráfica, Evelyn começou a trabalhar num escritório como coordenadora de marketing cultural, mas fazia um show ou outro no tempo livre. “Um dia, o meu chefe me viu num show e ele gostou tanto da minha atuação que ameaçou me demitir para eu investir na carreira. Um tempo depois, a empresa quebrou e ele falou: ‘felizmente, eu estou te demitindo’ (risos). Fui contratada como estagiária em outra empresa e também fui mandada embora. Nesse dia, eu peguei um ônibus, com uma colega da empresa, também demitida, que estava desolada. E eu, gargalhando. Surtei. Porque sempre pautei a minha vida na fé. Gosto de falar com Deus. Falei: ‘Deus, você está demais. Já entendi os sinais’. Eu estava lendo uns livros católicos sobre remar contra a maré e vi que tinha que parar”, lembra ela, que, em seguida, fez teste para ser backing vocal da banda Perdidos na Selva, que estava se renovando. Lá, ela conheceu o pai de seu filho, Juan, de 3 anos, e viraram os cantores do grupo. Faziam muitas apresentações em festas no Circo Voador, casa de shows na Lapa, no Centro do Rio de Janeiro, e começaram a ter muitos seguidores no Facebook.

 

No palco, Evelyn sempre gostou de transitar pelo rock, funk, soul e pop. Mas também teve a sua fase de cantar em bandas de bailes, com um repertório de música dos anos 70, mas isso foi no início de tudo, quando ainda cantava sem compromisso. Ela também toca percussão e tem vontade de aprender piano.

 

O ‘boom’ no teatro

 

O pontapé inicial das mudanças em sua vida veio em 2010, quando passou no teste para integrar o coro do musical “Tim Maia – Vale Tudo”, com direção de João Fonseca. “’Tim Maia’ foi o meu divisor de águas no teatro. Fiz o ‘teste do sofá’ (risos). A gente brinca com isso porque foi na casa do João, no sofá dele. Fui aprovada pra cantar, mas ele viu que eu era engraçada e me deu um número com outra menina.  E o musical foi um boom sinistro. Porque com João Fonseca não existe coro. Ele é o meu mestre. Ele dá oportunidade para todo mundo e você cresce. Eu cresci e não parei mais”, orgulha-se ela, que teve um sentimento especial ao atuar nesse espetáculo: seu pai, Ícaro, já falecido, era muito fã do Tim Maia.

 

No currículo, ela já coleciona trabalhos incríveis no teatro, na TV e no cinema, entre os destaques: os musicais “Cinderela”, “Cássia Eller” e “Vamp”; os filmes “Apaixonados” e “Minha família”; e as séries “Os homens são de Marte e é pra lá que vou”, na GNT; “Chapa quente”, na Globo, “Um contra todos”, na Fox Premium; e “Tô de graça”, no Multishow – este último, interpreta atualmente Marraia Carey, ao lado de Rodrigo Sant’Anna, que faz a mãe dela.

 

‘Porta dos fundos’ e o contato com o público

 

A partir do canal Porta dos Fundos, no YouTube, com mais de 14 milhões de inscritos, em que um coletivo de humor de primeira linha lança vídeos cômicos na Internet três vezes por semana, Evelyn estourou de vez. “Eu fiz um filme (‘Apaixonados’) que o Fábio (Porchat) viu o trailer e disse: ‘essa garota tem tudo a ver com a gente’. E aí comecei a fazer participações no Porta dos Fundos. Ele foi me ver no musical ‘Cássia Eller’ e a avó dele maravilhosa, que eu digo que foi a minha ‘empresária’, falou pra ele: ‘Fábio tem que contratar esta menina”. E já tem cerca de 1 ano e meio que estou contratada no elenco fixo.  Foi uma virada total na minha carreira”, empolga-se ela, que adora o contato com os fãs no seu dia a dia. Aliás, encontrá-la por aí é bem possível, já que ela é gente como a gente, anda de transporte público.

 

 

“O YouTube é muito legal! O Porta tem um público masculino e adolescente. Já o Multishow tem mais mulher e adolescente. E eu adoro quando as pessoas falam comigo na rua sobre os meus trabalhos. Esta semana, eu estava viajando de metrô, sentada. E eu ando mesmo de metrô, ué, tô nem aí, imagina, tenho que economizar, também (risos). Bom, voltando, um cara de terno, com pasta, cheirozão, olhou pra minha cara, apontou e desmontava de tanto rir. Falava “aquele vídeo do banco é muito legal, mas aquele outro…”, citando os vídeos exibidos no canal. E as pessoas do lado sem entender. E eu concordava e ria. Também teve uma outra vez, numa pastelaria que sempre vou, umas mulheres vieram falar comigo como se fossem minhas amigas: ‘Oi. Tudo bom? ’. Eu respondi: ‘Tudo. E com você? ’. Depois, uma delas pediu desculpas pelo jeito, dizendo: ‘sabe o que é, a gente te conhece da televisão, é como se fosse íntima’. Eu ri e disse: ‘se quiser, pode contar a sua vida, vamos conversar, tem problema nenhum’. Tirei foto e tudo. Eu gosto desse contato com o público, até mesmo com os haters. Eles postam: ‘sua gorda’. E eu respondo: ‘Ah, eu sou uma gorda tão legal’”.

 

Um dos retornos mais prazerosos que ela tem do seu trabalho é saber que ajudou as pessoas de alguma forma. Por causa de sua personagem Marraia Carey, no “Tô de Graça”, ela tem sido muito procurada nas redes por followers para tratar de questões de gênero.

 

“As pessoas precisam de alguém pra levantar bandeira e dar uma força. A revista ‘Nova Eva’ faz isso. Tenho tido muita procura na questão de gênero. As lésbicas têm me procurado muito. Marraia quer ser transgênero, a série é uma comédia rasgada, mas em nenhum momento eu pensei em fazer uma caricatura. Uma vez, entrei numa loja, e uma menina falou: ‘muito obrigada por mostrar pra minha família que dá pra ser assim’, referindo-se à personagem. Nossa! Eu abracei ela e saí de lá chorando”.

 

Evelyn afirma que nunca sofreu bullying por ser gorda, mas que perdeu papeis na TV por estar fora do perfil. “Claro que já perdi trabalhos por não estar no padrão. Isso é fato. Eu ouvi de uma empresária que eu tinha que emagrecer 15 quilos, aplicar botox e tal. Cheguei a emagrecer, fiz loucuras e quer saber? Não acontecia nada na minha vida. Quando engravidei do meu filho, eu engordei 23 quilos, e fui parar no cinema, na Internet e na TV. Essa sou eu, né? Não vou ‘noiar’. Me incomodou fazer a dieta, porque gosto muito de comer (risos)”, confessa ela, que tem hipotireoidismo e cuida da saúde. “Gosto de malhar e faço musculação. Eu me preocupo com o meu bem-estar. ”

 

‘Eu gosto desse contato com o público, até mesmo com os haters. Eles postam: ‘sua gorda’. E eu respondo: ‘Ah, eu sou uma gorda tão legal’”

 

Mas ela torce para a mudança dos padrões na vida e na ficção. “Quero ver uma Mariana Xavier sendo protagonista de novela. Infelizmente, o talento ainda não conta na televisão, isso é fato. Não estou falando mal da magrinha que está ali, porque temos excelentes atrizes magras. Mas falta muito para a desconstrução desse estereótipo. Se você continuar dando isso para o povo, vai virar um padrão. Se você é uma ferramenta tão forte por que não forma de outra maneira? Vai aliviar tanta gente, tirar gente da depressão, evitar que pessoas se mutilem para chegar ao padrão que está na novela. Eu espero que nós, que não somos do padrão, consigamos mudar alguma coisa dessa visão que as pessoas têm.”

 

E aqui ela frisa a importância da Nova Eva por valorizar o segmento plus size e a diversidade. “A revista é ótima porque dá afago, abrigo, para essas pessoas que vivem esse lugar que ‘precisa’ entrar no padrão e todo mundo tem que ficar igual. A Nova Eva mostra que somos livres. Ainda há falta de oportunidades para o negro e para o índio. Eu não sou negra nem branca. Já me disseram que estava fora do perfil porque tenho voz de ‘negra’, mas não sou negra. Sou o quê? Índia? Então, quando tiver o musical ‘Tainá, uma aventura na Amazônia” me chama e serei a mãe dela (da Tainá)”, critica.

 

Uma mulher de fé

 

Talentosa e guerreira, Evelyn atribui a sua trajetória artística bem-sucedida à sua fé. Para tudo que perguntei na entrevista, seja de como foi que conseguiu tal papel ou tal convite, a resposta começava com: “Deus na minha vida”. Moradora da Tijuca, bairro da Zona Norte no Rio, ela foi criada dentro dos preceitos da Igreja Católica.

 

“Eu tive uma criação dentro da Igreja Católica, ia a encontros de adolescentes, e foi se firmando uma fé muito grande que, hoje em dia, eu me surpreendo. Me transformou, sempre pautei a minha vida na fé. Sigo Cristo, não tenho mais religião”, frisa ela, que, já adulta, aos 25 anos, participou cantando e atuando no grupo de jovens Ressuscitar-te, da Paróquia da Ressurreição, que tem à frente o padre Zé Roberto.

 

Já a paixão pelo teatro começou no colégio e ela, criança, quebrava tabus. “Eu era péssima nos esportes. Iam montar no colégio a peça ‘Branca de Neve’ e eu disse que eu queria fazer a protagonista. O sonho do meu pai era ser ator e ele achou bom eu fazer o papel. Já minha mãe (Ana Lúcia) disse que eu era louca. Ela tinha medo que eu passasse vergonha. Ela é o oposto de mim, tímida, na dela, mas é a minha maior parceira. E foi incrível. A professora, a tia Sônia, do colégio de freira Santos Anjos, disse que eu era diferente. Lembro que a minha mãe ficou apavorada. Ali, eu já estava descobrindo a minha aptidão para a comédia”, relata.

 

Para fechar, Evelyn nos conta que a maior transformação da sua vida foi quando virou mãe. E o que ela mais quer é criar o seu filho para que seja um homem forte, que respeite a igualdade de gênero e a mulher e que tenha sensibilidade. E os planos para o futuro? “Penso em gravar um single, em fazer seriados, novelas, dramas, comédias, um programa meu… Tanto coisa. Caraca!

 

Colaboradora: Produtora Pri Mendes | Beleza: Thayná Brito
Evelyn usou: Amaryllis Moda & Acessórios e Chousa’s Boutique

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